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Dia Internacional do Brincar



É arriscado brincar sem risco

O direito ao brincar a sério

Mafalda Correia

Terapeuta Ocupacional Clinica Navegantes


Memórias de uma palestra

Porto, janeiro 30 de janeiro de 2026, ISIC

Anita Bundy, apresenta um trabalho intitulado – “Bubble Wrap Is for Packages, Not for People: Balancing Duty of Care and Dignity of Risk”, uma pequena viagem ao direito a correr riscos, a dignificação do risco no brincar a sério. Não é novidade, nem física quântica. Esta palestra, que foi tremendamente inspiradora, recordou-me o projeto intitulado ‘ser aluno aos olhos da criança’, oficinas de formação para professores, emaeis e saúde escolar de 1º e 2º ciclo, pela lente de uma terapeuta ocupacional que trabalha há muitos anos em equipas de psiquiatria da infância e adolescência. Equilibrar o dever de cuidar e a dignidade do risco! E que missão ousada esta. E com este disclouser vamos então debruçarmos e refletir sobre este tema.

Muita tinta já se gastou a escrever sobre o aumento da iliteracia motora, mas os meus olhos de terapeuta ocupacional preocupam-se com outras questões… a vida, por mais simples que seja, é revestida de riscos, alguns mais assustadores do que outros, deverei eu enquanto cuidadora, profissional de saúde impedir a todo o custo os riscos, ou bem pelo contrário devo contemplar e estimular a ousadia de abraçar desafios e de criar novas competências que uma a uma, no seu somatório levam a um encontro mais generoso com a auto estima, pois esta alimenta-se também do que consigo fazer (noção de competência eficácia).

Anita Bundy, fala do respeito que se ganha ao superar desafios e de como a autoestima precisa deste encontro com o risco. Estamos em 2026, e urge falar da dignidade de brincar com risco; não querendo ser saudosista, mas desde já a minha memória leva-me a locais de aventuras não vigiadas, de riscos superados que me encheram o peito de orgulho e os joelhos de cicatrizes que contam as histórias.

A brincadeira arriscada veste-se de atividades não estruturadas, excitantes que envolvem desafios como velocidade, obstáculos, carga, entre outros, sem previsão de resultados, com a liberdade de conjugar a forças, energias, recursos internos e externos ‘arriscados’. Desta forma a criança permite-se ser através do fazer, vai conhecendo quem é e de que matéria é feita, através a interação com o ambiente, vai criando a noção de si, através da infinita oportunidade que cada brincadeira arriscada fornece.

A tentativa anti-natura de proteger a todo o custo, é talvez mais arriscada que a permissão para brincar livremente. Talvez, surja neste momento a velha máxima ‘prevenir é melhor que remediar’… mas será assim que se educa para a resiliência, para a resolução de problemas, para o equilíbrio entre a alegria e a tristeza, entre o sucesso e o fracasso.

Todas as populações vulneráveis, que são as que reforçam o dever de cuidado, são também aquelas a quem o risco é mais limitado, pela assunção de que por serem vulneráveis não podem arriscar. Este texto serve para nos fazer refletir sobre a dignidade do risco vs o dever de cuidar. Será que a minha avó de 80 anos não poderá saltar de paraquedas? Será que o menino amputado não poderá fazer surf? Será que a criança surda não pode andar de bicicleta?

Anita Bundy, excelente advogada da dignificação do risco, usa a imagem do pântano lodoso para retratar o terreno incerto quando se fala deste tema; usa também a metáfora do ‘bubble wrap’ (plástico de bolhas), referindo que esse nível de proteção é para embalagem e não pessoas!

Missão – dignificar o risco, apoiar sem dirigir, sem colo e não prisão.

 
 
 

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