O meu filho adolescente não fala comigo: O que posso fazer?

Quanto mais pergunta, menos o seu filho adolescente conta? Perceba porque é que alguns adolescentes se fecham quando os pais tentam aproximar-se e o que pode ajudar a melhorar a comunicação entre pais e filhos.
— Como correu a escola?— Bem.
— Estás tão calado. Aconteceu alguma coisa?— Não.
Se tem um adolescente em casa, é provável que esta conversa lhe seja familiar. A realidade é que à medida que os filhos entram na adolescência, muitos pais sentem que começam a perder o acesso ao mundo deles, as respostas tornam-se mais curtas, a porta do quarto fecha-se mais vezes e aquilo que antes era contado espontaneamente sobre a escola, os amigos ou os sentimentos parece ficar cada vez mais reservado.
O meu filho adolescente já não fala comigo. O que mudou?
A adolescência é uma fase marcada pela construção da identidade e por uma necessidade crescente de autonomia, as amizades tornam-se mais complexas, podem surgir as primeiras relações amorosas, conflitos sociais, inseguranças relacionadas com o corpo e a identidade, experiências de rejeição ou vergonha e emoções que o próprio adolescente ainda está a tentar compreender.
Começar a decidir o que contar, a quem contar e quando contar também faz parte deste processo de crescimento, por isso, um adolescente falar menos com os pais pode simplesmente significar que está a desenvolver uma maior necessidade de privacidade e autonomia.
Quando as perguntas dos pais começam a parecer um interrogatório
Na maioria das vezes, as perguntas surgem de uma intenção positiva:
— O que aconteceu?— E tu, o que fizeste?
Para os pais, estas perguntas podem querer dizer simplesmente, quero perceber o que aconteceu para poder ajudar-te, mas o adolescente pode senti-las de outra forma e achar que significa que tem de explicar tudo.
Como falar com um adolescente que não quer falar?
Talvez uma das mudanças mais importantes seja perceber que nem todas as partilhas precisam imediatamente de uma pergunta, de um conselho ou de uma solução. Imagine que o seu filho lhe diz que ficou sozinho no intervalo e que acha que os amigos estão chateados com ele. É natural querer perceber imediatamente o que aconteceu questione porquê, fizeste alguma coisa? ou mesmo procurar rapidamente uma solução. Mas talvez, naquele momento, o adolescente não esteja à procura de uma solução, talvez esteja simplesmente magoado e precise de sentir que alguém percebeu aquilo que está a viver.
Uma resposta tão simples como, isso deve ter sido difícil ajuda a criar mais espaço para continuar a falar do que várias perguntas consecutivas.
Para comunicar melhor com um adolescente, é preciso saber ouvir
Quando queremos que um filho fale mais connosco, é fácil concentrarmo-nos nas perguntas certas, mas talvez seja igualmente importante pensar, o que acontece quando ele responde. Ouvir não significa concordar com tudo, ignorar comportamentos preocupantes ou deixar de estabelecer limites. mas criar espaço para compreender antes de reagir.
Em determinadas situações, pode ser útil separar dois momentos, primeiro ouvir e compreender aquilo que aconteceu e depois, quando a emoção já não está tão intensa, conversar sobre consequências, limites ou possíveis soluções.
As melhores conversas com adolescentes nem sempre acontecem frente a frente
Quando pensamos numa boa conversa entre pais e filhos, imaginamos frequentemente duas pessoas sentadas, frente a frente, a falar sobre sentimentos, mas com filhos adolescentes nem sempre ou quase nunca funciona assim. Algumas conversas importantes acontecem no carro, enquanto se prepara o jantar, durante um passeio, a caminho de algum lugar ou perto da hora de dormir.
Há uma razão para estes momentos poderem facilitar a partilha, a conversa não é a única coisa que está a acontecer e para alguns adolescentes, não ter de manter contacto visual constante ou não sentir que foi marcada uma “conversa séria” pode reduzir a pressão e tornar mais fácil falar.
O que fazer quando o adolescente diz que não quer falar?
Imagine que o seu filho chega a casa diferente. Está mais calado ou irritável.
— Está tudo bem?— Sim.
— Tens a certeza?— Sim.
— Eu conheço-te. Aconteceu alguma coisa?— Não.
Perante estas respostas, é compreensível que queira insistir, mas continuar a perguntar pode fazer com que o adolescente se feche ainda mais, experimente, quando quiseres, se quiseres falar estou aqui. Deste modo, transmite duas mensagens, reparei em ti e eu respeito o teu espaço.
Respeitar a privacidade não significa ser indiferente, significa permitir que o adolescente tenha alguma escolha sobre quando e como está preparado para falar.
A forma como reage hoje pode influenciar aquilo que o seu filho lhe contará amanhã
Os adolescentes aprendem, através da experiência, o que acontece quando contam alguma coisa aos pais. Imagine que o seu filho revela que teve uma má nota, experimentou álcool numa festa, está apaixonado, teve uma discussão séria com um amigo ou fez alguma coisa de que se arrepende. Se a primeira reação for como foste capaz, eu avisei-te e outras deste tipo pode fazer com que o adolescente retire uma conclusão mesmo que distorcida, de que quando conta alguma coisa menos boa as coisas ficam piores.
Isto não significa que os pais tenham de aceitar todas as escolhas dos filhos ou deixar de estabelecer limites e consequências, mas que a primeira reação pode influenciar a probabilidade de existir uma próxima conversa. Ajuda ter dois momentos, primeiro ouvir e compreender e depois conversar sobre limites, consequências ou soluções.
Dizer “podes contar-me tudo” pode não ser suficiente
Para um adolescente falar sobre algo difícil, não basta ouvir dos pais que pode contar tudo, precisa também de sentir que o adulto consegue lidar com aquilo que vai ouvir. Se percebe que determinadas informações deixam os pais extremamente ansiosos ou zangados, pode começar a esconder algumas coisas, não apenas por receio das consequências, mas também porque não quer lidar com a reação do adulto.
Como reajo quando o meu filho me conta algo difícil?
Consigo ouvir antes de responder? Consigo tolerar não ter imediatamente uma solução? Consigo perceber aquilo de que o meu filho precisa naquele momento, mesmo quando a situação desperta ansiedade em mim?
Adolescente fechado: Quando respeitar a privacidade e quando ficar atento?
É natural que um adolescente queira ter conversas que os pais não ouçam, passar algum tempo sozinho ou não contar imediatamente tudo aquilo que aconteceu faz parte do crescimento, mas privacidade e isolamento não são exatamente a mesma coisa.
É importante prestar atenção quando existe uma mudança significativa e persistente no comportamento, especialmente se surgirem também sinais como por exemplo, isolamento, perda de interesse por atividades anteriormente importantes; sofrimento emocional intenso; alterações significativas no funcionamento escolar, entre outros.
Nestas situações, talvez a questão deixe de ser, como faço para o meu filho falar comigo e passe a ser, de que apoio poderá o meu filho precisar neste momento.
O objetivo não é o seu filho adolescente contar-lhe tudo
Provavelmente, isso não seria realista, nem mesmo necessário, a ideia é construir uma relação suficientemente segura para que, quando alguma coisa realmente importante acontecer, o seu filho saiba que pode falar consigo. Essa segurança constrói-se, por exemplo no ouvir sem transformar imediatamente a conversa num interrogatório, mostrar interesse sem exigir acesso a tudo, respeitar momentos de silêncio, entre outras.
Porque crescer implica afastar-se um pouco, experimentar, descobrir e conquistar autonomia, mas isso não significa deixar de precisar de um lugar seguro onde regressar.
Talvez, por isso, a pergunta mais importante não seja, como como faço para o meu filho me contar mais, mas sim o que sente o meu filho quando decide contar-me alguma coisa.
Quando procurar ajuda?
Se sente que a comunicação com o seu filho se tornou cada vez mais difícil, se os conflitos são frequentes, se existe um afastamento que o preocupa ou se observa mudanças significativas no comportamento, nas relações ou no bem-estar do adolescente, poderá ser importante procurar apoio profissional. Este apoio pode também ajudar os pais a compreender melhor esta etapa do desenvolvimento e a encontrar novas formas de comunicar e de se relacionar com o filho.




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